Tudo é relativo
Acompanhe a história do Grupo Teknê, fundado no Rio de
Janeiro por quatro físicos. Cansados de ver o ensino da disciplina
preso aos conceitos newtonianos (ou seja, restrito às descobertas
feitas até o final do século XIX), eles se propuseram
um desafio e tanto: desenvolver atividades para explicar aos jovens
do Ensino Fundamental a Física contemporânea. Uau!
Hoje, os alunos de Marco Braga na 8ª série do Colégio
Santo Agostinho aprendem Teoria da Relatividade. É isso mesmo.
Com transparências de obras de arte, filmes e um livro paradidático
em que Einstein bate papo com Galileu para explicar suas idéias,
o criador do Teknê transforma quarenta adolescentes da tradicional
instituição carioca em loucos por Física. A aula
começa com uma provocação: nós viajamos
ao passado a todo instante. Entre risos e piadas, a classe logo percebe
que é isso mesmo. Só que, para entender a lógica
aparentemente ilógica, é preciso abandonar as noções
clássicas (para não dizer velhas) de espaço e tempo.
Siga a explicação de Braga: a luz viaja no espaço
a 300000 quilômetros por segundo e só vemos os objetos
que a refletem. Quando a distância entre nós e o que vemos
é pequena, o trajeto se dá em frações de
tempo ínfimas. Portanto, sempre vemos o passado, ainda que muitíssimo
recente. Já a luz do Sol demora 8 minutos para chegar à
Terra. Ao contemplar as estrelas, vemos a luz emitida por elas há
10 milhões ou, em alguns casos, 2 bilhões de anos... Mais
uma vez, estamos em contato com o passado. Agora, o do Universo.
Nessa hora, a garotada está boquiaberta, fascinada e, acima de
tudo, curiosa. O professor leva para a classe um pequeno arsenal que
prende ainda mais a atenção. Transparências de pinturas
de Claude Monet e Pablo Picasso exemplificam como a sociedade do final
do século XIX e começo do XX repensava a noção
de espaço e tempo. Com isso, mostra que Einstein não tirou
a Teoria da Relatividade da cartola.

Ricardo Beliel
Tudo é relativo: Braga (de barba) usa lençol,
maçã e limão para explicar o buraco negro
Buracos negros
A conversa sobre velocidade da luz, como não poderia deixar de
ser, desperta a curiosidade sobre um tema que fascina a garotada: os
buracos negros. A teoria vira realidade de forma engenhosa. Os estudantes
seguram um lençol (que representa o espaço-tempo, outro
conceito de Einstein) a 1 metro do solo e colocam uma maçã
no meio, provocando uma curvatura. Em seguida, um limão é
atirado no "sistema". Ele dá voltas em torno da maçã
e se gruda nela. Ou seja, corpos (e, no caso do espaço, astros)
mais densos atraem outros em sua direção. Isso não
se dá pela força da gravidade resultante de sua massa,
mas pela curvatura que provocam no espaço-tempo ocupado por eles.
Se você jogar uma bolinha de chumbo (que, embora menor, é
mais pesada) sobre o tecido, certamente a maçã e o limão
serão engolidos pelo novo "buraco negro".
Chegou a hora de voltar para o Universo — e apresentar a explicação
científica para o fenômeno. Quando uma estrela morre, pode
entrar em colapso e ter sua massa reduzida a um ponto de densidade infinita.
Esse ponto provoca uma curvatura bastante profunda no espaço-tempo,
atraindo tudo o que passa por perto. Inclusive a luz, que não
consegue escapar, tornando o buraco totalmente negro. Encontrar esse
modelo de aula não foi fácil. Os físicos do Teknê
também achavam falha a própria formação.
Por isso, se uniram na busca de linguagens mais divertidas e eficientes
para ensinar. Tiraram o jaleco de detentores do conhecimento e vestiram
o de parceiros de aprendizagem.
PAOLA GENTILE - REVISTA NOVA ESCOLA - JUNHO-2001 - |