Texto didático utilizado para a discussão do papel da formação do ensino técnico. Publicado na revista Tecnologia & Cultura do CEFET-RJ e no jornal TELE-JORNAL do Colégio Graham Bell ligado ao Sindicato dos Trabalhadores de Telecomunicações do Rio de Janeiro (SINTEL-RJ)



Projeto de Leonardo para um helicóptero

ler qualquer coisa sobre Leonardo Da Vinci é no mínimo fascinante.

muito conhecido como um grande pintor, pouco se fala sobre seus outros aspectos, o de engenheiro e cientista.

o caráter técnico de seu trabalho passou a ser bastante divulgado após a redescoberta, nos anos sessenta deste século, de manuscritos que se acreditava perdidos, e que foram denominados de CODEX de Madrid I e II.

esses manuscritos, com aproximadamente 700 páginas, possuem diversas descrições de artefatos técnicos.

estudiosos da História das Técnicas têm ficado impressionados com a riqueza dos estudos neles encontrados. Pode-se dizer que seus projetos, como o helicóptero, o escafandro, o rolamento com bilhas e a bicicleta, são extremamente avançados para a época.


Estudos sobre a Lua no Códice de Leicester

no que tange ao seu caráter de cientista, entretanto, sua obra sempre foi questionada pelos historiadores da ciência. Este fato é consequência de se considerar a ciência como uma atividade formada apenas por construções teóricas explicativas dos fenômenos da natureza.

leonardo realmente estudou os fenômenos naturais em campos extremamente diversos, como a óptica, a anatomia, a botânica, a acústica, a fisiologia, a geologia e cartografia. Isto sem falar nas diversas abordagens da mecânica (balística hidráulica, etc.).

entretanto, seus estudos sempre eram voltados para uma implementação prática. Leonardo seria nesta concepção um "Homem da práxis", muito mais preocupado em construir artefatos mecânicos a partir de seus estudos da natureza do que elaborar teorias.

a velha polêmica em torno da dualidade trabalho manual versus trabalho intelectual sempre colocou a técnica e a ciência em extremos opostos de um mesmo empreendimento que é de difícil definição. Sabe-se que existe a ciência pura e teórica de um lado, e a técnica, visando a construção de artefatos, de outro.

mas entre esses extemos existe um território, com uma infinidade de tarefas de difícil separação em termos de uma classificação. Leonardo foi um Homem desse território.


A Última Ceia, de Leonardo da Vinci

à parte esta polêmica, poderia-se dizer que Leonardo foi único em seu tempo? Um único Homem poderia ser técnico, cientista e artista?

seria Leonardo um gênio da história da humanidade? Sem querer colocar em questão a qualidade da obra de Leonardo Da Vinci, sabe-se hoje que os "engenheiros do renascimento" foram homens extremamente polivalentes.

nos ateliês, surgidos a partir do fim da Idade Média, muitos engenheiros misturavam arte, técnica e ciência. Era comum entre aqueles homens a leitura de clássicos como Aristóteles, Euclides e Arquimedes.

o próprio CODEX de Madrid revelou uma lista de 116 obras constantes da biblioteca de Leonardo. Os ateliês eram espaços onde se estudava em comum e se produzia muito saber.

o historiador da tecnologia francês Bertrand Gille, em seu livro "Os Engenheiros da Renascença", revela que havia uma tradição na Europa neste sentido, isto é, de se formar homens com um conhecimento extremamente amplo nos campos da técnica, da ciência e da arte.

o alemão Konrad Kyeser (1366-?) foi o primeiro engenheiro a nos deixar uma obra bem documentada. Nela, encontramos projetos como o de um escafandro. Mais tarde outras gerações se seguiram como a dos italianos Brunelleschi (1377-1446) e Francesco Di Giorgio Martini (1439-1502). Ambos nos deixaram projetos técnicos de qualidade e grandes obras artísticas.

o trabalho desses engenheiros foi de extrema importância para que uma nova concepção do próprio "pensar" surgisse a partir dos anos finais da Idade Média. O exemplo mais típico dessa transformação foi o surgimento da noção de "perspectiva", presente em diversos quadros do Renascimento (ver a "Última Ceia" de Leonardo).

o surgimento de quadros com perspectiva foi de grande importância para a difusão de uma nova concepção do espaço. E esta nova concepção esteve no bojo das transformações operadas pela Física no século seguinte. Portanto, dizer onde começa a ciência, a técnica ou a arte, é extremamente difícil.



leonardo já nasce num ambiente onde todas essas coisas se misturavam. Ele foi o expoente máximo de um movimento que surgiu nos séculos finais da Idade Média e só veio a terminar com os primórdios da industrialização.

talvez a estranheza que Leonardo e seus colegas do renascimento nos causem hoje, em termos de um mesmo homem ter-se dedicado a tantas áreas do saber, seja fruto de algo que tenhamos perdido.

hoje, artistas, engenheiros e cientistas fazem parte de grupos de interesses diferentes. Vez por outra, surgem algumas pessoas que procuram contrariar esta divisão da cultura humana.

entretanto, esta postura é, nos dias de hoje, uma exceção. Mas por que? Por que técnicos tem que ser pessoas veiculadas somente a um pragmatismo sem medida? Por que não podem ser também artistas?

será que não seria função da educação científica buscar a construção de novos caminhos que permitam a formação de um novo homem, semelhante aos engenheiros-artistas do renascimento, onde os fundamentos da ciência, da técnica e da arte se mesclem num conteúdo único?

Bibliografia


GALULUZZI, Paolo – "Les Ingénieurs de la Renaiscence: de Brunelleschi à Léonard de
Vinci", Giunti, Paris, 1995

CIANCHI, Marco - "Les Machines de Léonard de Vinci", Editeur Becocci, Firenze,1995;

DA VINCI, Leonardo – Dela Natura, Peso e Moto delle Acque – Il Codice de Leicester, Electa, Milano, 1995;

 

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