Resumo do trabalho apresentado com a colaboração de Jairo Dias de Freitas no III Congresso de leitura realizado na UNICAMP em Julho/1999


o trabalho com ensino de física no ensino médio sofre de problemas que já são conhecidos de todos, professores e pesquisadores da área.

no campo da pesquisa, muito tem se falado das alternativas para se superar o ensino meramente matemático e de "decoreba" de fórmulas sem maior significado para os alunos.

Entrada em Jerusalém, de Pietro Lorenzetti

só que no campo da prática pedagógica quase nada tem se avançado na mudança das práticas vigentes já há décadas.

como um grupo de professores do ensino médio, mas que não abre mão de pensar e modificar a prática docente, temos acumulado ao longo dos anos experiências e reflexões teóricas a respeito do papel e das estratégias de atuação para modificar o panorama do atual ensino de física.

nesse sentido, temos desenvolvido práticas que tentam buscar relações entre os desenvolvimentos da Arte e da Ciência como forma de melhor entender a segunda, em particular a física, a partir da compreensão do ambiente cultural em que as teorias científicas foram construídas.

a busca por entender o universo cultural da produção das teorias científicas se reveste de dupla importância para nós. A primeira é que entender a ciência por UM viés histórico-filosófico dá significado e concretude às teorias estudadas.

o segundo aspecto diz respeito ao que entendemos por ensinar melhor uma ciência. Estudar ciência deve passar por compreender o processo de construção histórico-filosófico de suas teorias.

 

Noite Estrelada, de Vincent Van Gogh

e aqui reside um ponto fundamental das possibilidades do ensino de ciências; é muito mais difícil entender os conteúdos da ciência sem uma visão ampla do universo cultural em que as teorias foram geradas.

ao buscarmos as inter-relações entre ciência e arte, estaremos confrontado os estudantes com duas formas de expressar visões de mundo, que utilizam linguagens diferentes.

o entendimento de uma pode ajudar a compreender a outra.

aqui iremos apenas apresentar muito resumidamente uma passagem que ilustra nossa abordagem.

 

A Madona do Chanceler Rolim, de Jan Van Eick

o universo aristotélico, hierarquizado e imutável, é retratado pela pintura medieval. Os quadros separam completamente o Céu da Terra, pois estes mundos eram incomunicáveis.


as novas concepções e representações do espaço, introduzidas pelos artistas durante o Renascimento com a perspectiva e o surgimento de uma concepção de infinitude, abriu caminho para o desenvolvimento de uma física que utilizasse o movimento infinito. O que vemos representado na lei da inércia.


Alegoria em homenagem a Newton, de G.B. Pittoni

a teoria gravitacional newtoniana unifica a física terrestre e celeste, acabando com a separação medieval de céu e terra. O universo passa a ser todo regido pela mesma lei. O que novamente estará presente na representação pictórica.


uma discussão sobre as visões clássicas e românticas no início do século XIX ajudam a entender melhor qual foi a extensão da influência da visão mecanicista de mundo em várias áreas do conhecimento. Bem como dará aos estudantes um significado para o estudo aprofundado do legado newtoniano.


discutindo esse e outros exemplos podemos ver como é promissor para a compreensão da Ciência, como um instrumento de entendimento do mundo, o conhecimento dos contextos culturais em que as teorias científicas estavam sendo produzidas.


Bibliografia THUILLIER, Pierre — De Arquimedes a Einstein: a face oculta da invenção científica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994.

ARGAN, Giulio Carlo — Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

SHLAIN, Leonard — Art & Physics: parallel visions in space, time and light. New York: Morrow, 1991.